Wilhelm_Kalteysen_-_Saint_Barbara_Altarpiece_-_Google_Art_Project
“Santa Bárbara”, Wilhelm Kalteysen (1447)

A ela que hoje li que escrevi que quando quieta é um gato. Quantas linhas sagradas nos aproximam? Quantas insistimos sem nada fazer até hoje não nos afastar. Teimosas. As linhas… De quem ela gostava mais? Havia alguém de quem gostava mais? Agora também não saberei. Mesmo que lhe pergunte não saberei. Conforto: mesmo se lhe tivesse perguntado não saberia… E o resmungar continua e continuaria. Como podes — como se pode — falar de solidão? Entreter a fantasia com rezas? Uma ladainha que é um rezar a Santa Bárbara mesmo sem medo da natureza porque não há tempo para tal. Tomar nota e preparar o trabalho. Ardeu? Pragas? Roubaram? Daninhas? Secou? Meter o cadeado. Sulfatar. Enxertar. E se deixasse crescer umas flores aqui, perto deste pedregulho, no meio destas letras que ninguém lê? Têm de ver o poço, ainda alguém cai lá dentro. E os marcos? Estão a empurrá-los?! Pensam que não sei? Umas batatas ajudam, são sempre uma ajuda. De que adianta dizer. Mais. O melhor é calar. Meter em camadas. Não sabem que há um sítio que não se vê onde me sento, lá no canto, perto da linha que sei que separa, meto a enxada à frente, pego no pano a limpar a fronte, e deixo-me perguntar-Lhe o porquê.

Porque é que a minha vida foi assim. Porque é que eu não tive sorte alguma. Porque é que eu que até era a mais inteligente (eu sei que sim) acabei assim. Porque é que eu que não deixo nada por fazer estou assim. Porque é que eu não tenho nada meu a não ser esta vergonha que não mostro. Porque é que eu que não peço ajuda à Tua santa sofro o que ela denuncia.

Um dos gatos é sempre seu. Sabe? E a Santa é das nossas. Sabia?

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