Melancholic Tulip
André Kertész, Melancholic Tulip, 1939

Abri o caderno numa folha de pessoa morta. Numa letra rápida lê-se onde ela fica (‘contrariada’, mesmo escrito) enquanto o companheiro está hospitalizado em estado muito grave. Como vai sobreviver à eminente morte do marido, era a pergunta com que roía a esferográfica. E hoje serve-me esta fagulha para que ligue ao que sobrevive do casal. E não, não foi ela. Deu-se uma inconcebível recuperação. Há pessoas assim. Existem para o outro. Existem até depois da morte do outro. Insuflaram-se de tanta vida, pelo tanto amor que têm, que não conseguem efectivar a morte que vivem desde o dia em que já morreram.

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