encontrar uma editora à porta de casa, pensar de imediato no caderno vermelho (o meu, não o do Auster) que devo ter esquecido, mas o que interessa é confirmar se levo leitura para um qualquer momento vazio, enviar pelos substitutos dos CTT um livro que me espantou ser pesado já que foi leve e ouvir “escreve?”. responder, imediatamente, não. e começar a recuar. bem, escrevo, mas não escrevo bem. bem, escrevo, mas não é bem esse escrever. ora, escrevo. recordar o doente internado que numa sala de espera dos HUC, sem televisão ligada, animava umas dezenas de impacientes pacientes saltitando (é verdade, sal ti tan do) à minha frente porque mais ninguém lia (‘in illo tempore’ levava sempre uns três livros e o “Público”). na cadeira a meu lado repousei (como se fosse  o próprio que aí estava e impedia más companhias) uma antologia de Octavio Paz que ele me recitou de cor. perguntou “escreves?” respondi, não. “mas se lês. mas se falas. também escreves…” os livros não nos preenchem todos os silêncios e este foi um desses dias em que o papel de nada me serviu. “já sei, és maluquinha, maluquinha dos jornais. deixa-te disso. vive.” e foi embora. hoje não comprei nenhum jornal. espreitei a montra da Bertrand com o destaque do “Porque Falha Portugal?”, do Gustavo Sampaio, e pensei que só nos salvamos pela leitura, já chega de escrita.

 

 

a imagem é de uma app La aplicación Blanco de Octavio Paz nos ofrece la posibilidad de ver el poema en pantalla, siguiendo la idea original del Nobel al concebirlo: “una sucesión de signos sobre una página única; a medida que avanza la lectura, la página se desdobla: un espacio que en su movimento deja aparecer el texto y que en cierto modo, lo produce”. 

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